Fechei o Facebook na tela do computador e senti vontade de fumar. No pequeno quarto, arrumado de maneira perfeita para mim e ininteligível para outros, uma porta de vidro, apresentando uma privilegiada vista de um muro cinza, era 'convidativa' a um pouco de ar livre. Mas, em um átimo de energia, tomei a velha bermuda, a velha camiseta, o velho tênis... Caminhar à noite e fumar um cigarro. Idéia feita. Roupa trocada. As chaves fecharam meu mundo particular e me vi lançado na noite escura e vazia de uma terça-feira...
Saí através do portão branco, tinta nova, e senti o ar frio acariciando meu corpo cansado. Parei, decidindo se deveria subir ou descer pela rua, quando me lembrei que não possuía destino. Para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve. Cigarro aceso. E o primeiro passo, rua acima, contemplando as residências mortas, quietas. Uma casa na esquina possuía uma estranha janela, ou qualquer coisa semelhante, no muro, de utilidade duvidosa e aspecto... Bom... Esquece.
Ao dobrar a esquina, deparei-me com um homem de cerca de trinta anos. Moreno, calça jeans, camisa pólo. Uma pessoa comum. E como tal, agiu como uma pessoa comum: acelerou o passo ao me ver. Tal pensamento deve ter lhe ocorrido: 'uma pessoa andando à noite, em uma cidade pequena, sem estar com roupas de caminhada, com um cigarro aceso entre os dedos, usando brincos, piercing... vou acelerar o passo.' E assim o fez e assim chegou em uma casa a cinquenta metros à frente, onde entrou apressadamente, e sumiu.
Mais duas quadras e encontrei-me em uma avenida larga e iluminada, não muito no centro da cidade. Parece um pouco insensato iluminar uma avenida perimetral enquanto a avenida central carece do mesmo efeito. Não devo entender muito de política, por isso penso assim. Nessa avenida, a encher os olhos dos transeuntes, uma bela e vistosa loja de carros semi-novos. É feio falar usado. Uma loja dessas ilumina mais o olhar do homem 'adulto' que a vitrine da doceria os olhos da criança, pois a criança deseja o doce para saciar seu adorável desejo infantil de doce e o homem deseja o carro para saciar seu desejo de fazer os outros desejarem seu carro. É meio complicado, mas é assim.
Continuei subindo, mas uma aglomeração de veículos próximo a um buffet obrigou-me a dobrar à direita. Não queria mais passos apressados. As pessoas já andam rápido demais. Nem veem a vida passar. Virei, na rua escura, logo mais à frente finda por uma travessa. Na primeira residência, um sensor acionou a luz à minha passagem e apagou-se rapidamente. Um flash. Uma sensação de segurança a mais para o proprietário. O luxo de ver as luzes se acendendo à sua chegada, no sonho utópico do reconhecimento, deixando de lado o racional pensamento de ser apenas um mero sensor. O sonho das luzes de um teatro a abrir as cortinas para sua apresentação. Ou um simples detalhe colocado no projeto elétrico. Vai saber.
Até a rua transversal, nada de novo. Dentro de uma residência de madeira antiga, ainda alta do chão, sobre pilares de tijolos mal cozidos, uma senhora assistia a novela. O olhar longe, ultrapassando o roteiro. Talvez contemplasse a si mesma no vazio da representação. A pureza do pensamento conspurcada pela trama infiel da programação global. Semelhante ao velho carro branco, estacionado ao lado da casa, cujas nódoas do tempo se faziam presentes como as rugas da velha senhora.
Na esquina, à esquerda, um prédio novo, exibia entre frestas da cortina, uma menina nova, linda, em frente ao computador. Estava provavelmente a pesquisar a cura para alguma doença, um novo componente tecnológico, preparando-se para uma grande prova. Não. Não era nada disso. O sorriso maroto espelhava palavras como Twitter, Facebook e Orkut. E se aguardasse mais um instante e visse um ligeiro sorriso no canto dos lábios, seria a certeza de um 'curtir' esperado.
O primeiro cigarro acabara e o segundo pendia de minha mão balançando-se lentamente ao lado do corpo enquanto seguia já por outra rua. Esta deveria me levar mais longe sem a necessidade de desvios, e assim foi... Metros traçados em calma levaram-me a um grande mercado. Bonito, vistoso e iluminado como somente um mercado sabe ser. Sim, porque lá dentro há a verdadeira promessa da vida: o alimento. Nada nos fascina mais do que ele. Nada une mais as pessoas que um bom churrasco. Nada nos faz esquecer mais de quem passa fome que nossa própria 'barriga cheia'. Nada. Nada...
Do outro lado, terrenos vazios. Um exibia a placa 'vende-se.' As remanescências de uma velha casa ainda permaneciam em ruínas. A história de quem outrora vivera ali, quem sabe, perdera-se no tempo como o brilho do chão de 'vermelhão', ainda visível em alguns lugares. As casas se vão. Tudo se vai. Mas talvez ainda more na lembrança de alguém o momento da brincadeira com carrinhos naquele chão vermelho, sem contas para pagar, sem amores para chorar, sem ser adulto. Feliz.
A rua em questão leva a uma praça. Algumas crianças brincavam em playground enquanto uma mulher compartilhava por telepatia o olhar da velha senhora da casa de madeira. É o olhar do mundo. O vago. As 'almas' fugiram deste planeta em algum momento da história e ninguém se apercebeu. Os corpos vazios continuaram por aqui, a vigiar as crianças. Outros corpos vagavam ao léu, vazios, como o olhar da mulher. Como a casa gigantesca à minha esquerda, capaz de abrigar vinte famílias. Como eu mesmo. Como meu coração.
Hora de mudar de rumo. Não foi uma boa idéia. A casa gigante tinha aqui suas irmãs, primas e companheiras... Casas grandes, jardins bonitos, carros elegantes. Um, dois, três. Garagens de casa do tamanho de uma casa. Se no mercado se esquece da fome do mundo, aqui se esquece daqueles a dormir sob as estrelas, ato cuja beleza se perde quando os dentes tiritam, os músculos se contraem e a morte presta seu aceno. Hora de mudar de rumo. De novo.
Em uma das avenidas centrais abre-se um novo leque de visões. Ou audições, pois, na verdade, um pouco antes dela, a alguns metros da esquina, meus ouvidos já se saturavam de gritos horrendos a louvar algum deus. Em uma igreja de pintura descascada, alguns homens conversavam próximo à rua, com suas bíblias atrapalhando a gesticulação. À porta, uma menininha de olhar triste, vestidinho surrado vermelho, contrastava com um homem moreno, de traços fortes, de terno negro, de livro puído, de sapato brilhante, ... , de parentesco possível com o homem que gritava em brados sobre um púlpito envernizado.
Os gritos misturavam-se com gemidos, 'deus, oh deus', mais gritos, 'curai', mais gritos. Os olhos fechados das pessoas. O balançar. A verborragia ininterrupta da massa. O credo. A oração. O grito. O medo. O meu próprio medo ao imaginar um mundo tomado por tudo aquilo. Talvez o medo dos bêbados do bar da frente, às vezes voltando-se para se certificar da realidade dos sons. Desta vez, fui eu quem apressou o passo.
Mas não adiantou muito. A menos de cem metros, uma outra igreja. Mas não havia tantos gritos. Apesar das cores serem as mesmas. As mesmas bíblias puídas. Os mesmos ternos. Os mesmos termos. Não compensa o relato. Vale mais o relato das faces das pessoas aguardando seu horário de aula em uma auto-escola. Rostos joviais com a centelha do ânimo e da revolução... Totalmente apagados naqueles semblantes. Mais corpos sem vida. A falta de visão de um único sorriso prendeu minha garganta e uma lágrima solitária conseguiu fugir das barreiras da razão e passou feroz, marcando um atalho para a tristeza em meu rosto.
Era tempo de retornar. Em uma mudança de direção, coloquei-me em outra avenida e desci contemplando as lojas. Os números. A palavra 'promoção' servindo de subtítulo para quaisquer avisos. Duas quadras. Uma nova mudança e já me encontrava mais perto de prosseguir com meu retorno. Desta vez estava realmente na 'avenida principal'. Escura e triste como somente algumas avenidas principais conseguem ser. Cortada o tempo todo por esses novos tipos de humanos, estes que, por alguma adversidade funcional, só podem se locomover entre dois pontos distando mais de cinquenta metros sobre duas ou quatro rodas.
Na caminhada lenta, divisei uma feição conhecida. Uma pessoa. Um ser humano. Sentado em uma mesa de lanche, conversando com uma pessoa trajada com roupas de quem prepara o respectivo lanche. Aproximei-me. 'Olá, tudo bem, e daí, tudo, então, mas, e, olha, desse jeito, mas, por outro lado, escuta.' E a conversa vai. No carrinho de lanche, uma TV me lembrava da existência de um mundo 'lá fora,' feito de dinheiro, política e... O quê? Luan Santana? Ok. Era um jornal 'nacional.' Um pote com uma tampa em forma de abacaxi alegrava o carrinho e um pacote de catupiry olhava de forma estranhamente constrangedora para mim. 'Valew, tchau, então, até.' O carrinho de lanches ficou para trás.
A menos de uma quadra à frente, em um outro carrinho, várias pessoas comiam seus lanches quietas. Talvez ouvesse mais gente neste porque o letreiro era iluminado e usava várias cores sem qualquer intenção de combinar uma com as outras. Uma criança imaginava algum monstrinho apetitoso enquanto olhava para seu lanche desconfiado antes da gostosa mordida. Do outro lado, um banquinho de madeira extremamente astuto segurava ao mesmo tempo uma porta de aço aberta e um velho rádio AM chiando e, às vezes, deixando o velho locutor dizer qualquer coisa sobre algo sem interesse algum a qualquer um dos ouvintes.
Uma sorveteria, uma mulher atravessando a rua com seu capacete na mão, três jovens, todos de blusas até pescoço, grandes correntes e ar retraído, uma igreja matriz com dois carros no estacionamento, um cartório e um cachorro cheirando um saco de lixo = trajeto até o semáforo do famoso calçadão. Hora de passear pelas calçadas onde já existiram desenhos senoidais, hoje tomadas pelos remendos e pela sujeira.
Subi o velho calçadão. Um novo cigarro tangia a orquestra invisível e surda frente à qual a fumaça dançava tão erótica. Lojas, lojas, carros, uma sorveteria. Na primeira quadra, por um mero acaso do destino, as lâmpadas da iluminação pública foram se queimando e foram trocadas de maneira a ficaram alternadas: uma amarela, uma branca, uma amarela, uma branca. Os carros subiam devagar, exibindo-se para espíritos invisíveis. Uma mulher de meia idade, ainda cheirando à última hóstia, olhava vitrine por vitrine, exceto a da loja country. Talvez não gostasse de botas. Um casal conversava sobre nada, sentado em um banco qualquer. Na segunda esquina, um vento de paz e chuva próxima. Nada era sonho ou ilusão. O mundo parara realmente.
Ao final do passeio, uma grande loja ostentava os artigos em duas grandes vitrines. A empresa fazia a população se dividir em dois grupos, os que podiam comprar lá e os que não podiam. Algumas pessoas do segundo grupo, às vezes, tentavam passar para o primeiro, mas acabavam criando um novo espécime: os que compram e não conseguiam pagar. Duas mulheres observavam a vitrine. Suas roupas demonstravam sua participação no primeiro grupo. 'Vou pegar aquele vermelho para minha menina.' Virei-me, mas não pude ver o produto. A loja ficara para trás.
Continuei pela avenida diretamente de volta à minha casa. Um escritório contábil, uma boate, um posto de combustíveis. Duas meninas muito novas, com roupas muito curtas, passaram e abriram um sorriso muito suspeito. Sorriam para mim ou só riam de mim. Não me preocupei em saber. Não eram o mínimo esperado de uma mulher. Semáforo fechado, nunca para mim, e cada vez mais perto da chegada.
Em outra porção do trajeto o cheiro de ração, os latidos e uma grande placa 'Banho e Tosa' agrediram minhas narinas e minha visão e me fizeram voltar o rosto para a rua. Um carro com a placa começada por ATM me fez olhar para o céu e ver as estrelas lutando com as nuvens. O cansaço me fez voltar à realidade e ao meu caminho. Uma pastelaria. Duas pessoas na esquina. 'Amanhã é dia primeiro?' 'Não sei. Hoje é trinta.' 'Estamos em Agosto.' 'Deixe-me ver.' Deixei-as enquanto uma delas contava os meses nos nós da mão para saber qual possuía trinta e um dias.
Duas quadras me separavam de meu destino. Destino descoberto no caminhar. Em um outro posto de combustíveis, três mesas, uma com três homens e cada uma das outras com dois outros homens, conversavam sobre assuntos de homens. As folhas rolavam pelo chão. O assunto devia ser importante. O posto apresentava sinais de reforma. O assunto provavelmente não iria mudar mais o mundo que a novela assistida por suas respectivas esposas, namoradas e amantes em casa. O posto passou.
Uma quadra. As residências apareceram novamente. Com suas janelas de iluminação multicores-de-novela-das-nove. Outras na escuridão de quem provavelmente dormiu mais cedo, talvez porque comece a trabalhar muito cedo. Não parecia haver, por trás daquelas janelas, dois amantes quaisquer. Duas pessoas a se beijar e percorrer o corpo uma da outra em êxtase. Eram janelas e casas de uma terça-feira à noite. Só isso. Na casa situada à minha esquina, uma arruda balançava ao sabor do vento. Uma mão invísivel benzendo o mundo.
O portão branco. A porta. A chave. Minha cadeira. Uma tela. Abri o Facebook e voltei para o mundo irreal. Lá, todos são perfeitos e as pessoas [fingem que] são realmente felizes...